Love, Death and Robots - O futuro da animação adulta
Divirto-me imenso a ver produções que estão na Netflix ou foram patrocinadas pela mesma, como já devem ter reparado. Um dia, depois de uma busca intensa no menu interminável, dei de caras com Love, Death and Robots, pensei "parece interessante" e foi aí que me vi a entrar nos mundos destes episódios durante o resto do dia (adeus vida social).
A ideia era que se tornasse numa espécie de recriação do filme canadiano Heavy Metal (1981), ficção científica em animação adulta. Acabou por ser diferente mas conseguimos ver para onde foi a inspiração. É um projeto que teve início há mais de uma década, já ganhou vários prémios e quero mostrar-vos o porquê de ser único.
Cada episódio tem um conceito, um mundo, uma moral e até uma animação diferente. Tem uma natureza antológica muito interessante. Não faz mal se não quiserem ver tudo seguido mas não vos vão tirar muito tempo. O episódio mais longo não chega a ter vinte minutos. Todos os contos fluem bem na ordem em que estão expostos pela plataforma e, apesar de serem episódios independentes, têm o mesmo feel de um álbum musical, com os seus altos e baixos, bons e maus humores, risos e choros (como uma boa antologia deve tentar fazer).
A primeira reação que tive a ver foi "isto é o futuro". Não só por ser de ficção científica, que tem sempre uma aura futurística, mas por estar à frente do seu tempo. Com a evolução tecnológica que acontece cada vez mais rápido, não me parece nada estranho que este se torne o novo normal. O género animado está a crescer exponencialmente. Imagino que daqui a uns anos será assim: episódios pequenos de tempo mas cujo conteúdo vai para além do que assistimos em poucos minutos.
O crescimento da animação adulta também me parece ser o mais prático e poderá aumentar ainda mais nos próximos tempos. Principalmente agora, com o novo normal do confinamento/pós confinamento. As séries ou filmes em live action precisam de uma presença física (atores, crew de filmagem e produção, etc.) que a animação não impõe.
Claro que esta animação adulta já existe há muito tempo, não é nada novo. Muitos programas já conhecem, como Os Simpsons, Family Guy, American Dad (os clássicos) e também mais recentes, como Bojack Horseman, Big Mouth e Desencantamento (espetaculares, têm de dar uma oportunidade se nunca viram). No entanto, o que vemos em todos estes e, em grande parte do género de animação adulta, é que são maioritariamente cómicos. Não estou a dizer que o Love, Death and Robots não tem piada (há episódios hilariantes) mas definitivamente não é como os que enunciei. Os episódios são tão diversos que dão humor, ação, também chegam a ser documentais e outros mais virados para thriller (meio macabro). A variedade de emoções é grande. É como se as curtas-metragens da Pixar fossem para maiores de 18.
Mostra tópicos muito pesados, daqueles que nos põem a pensar no assunto o resto da semana. Acho que se gostam de Black Mirror também vão gostar de Love, Death and Robots. Os temas principais fazem questionar tudo. Só compreendemos o significado no fim ou nem aí. Discutem a existência humana, acima de tudo, de forma cómica ou sinistra. Nem sempre é o que esperamos, podem aparecer aparelhos de limpeza de piscina, análises subtis e filosóficas sobre a morte, a vida presa num loop, monstros e soldados soviéticos ou iogurte. Essa é a graça desta série e o porquê de não conseguirmos assistir a apenas um episódio.
Definitivamente não é algo que se veja levemente. Alguns episódios podem parecer mais calmos, de consumo fácil, em que o cérebro não tem de se esforçar tanto. Contudo, o nosso instinto é de criar sempre mais significado, mesmo que não exista. Vamo-nos habituando ao longo da série e faz com que fiquemos com a mania da perseguição. Isto não vem só de mim, falei com várias outras pessoas que viram e ficavam sempre com a angústia de querer saber tudo ao pormenor.
Gostava de perceber mais sobre animação mas tenho de admitir que é uma arte, principalmente aqui. O que vos sei dizer é que é impressionante a maneira como adaptam um modo de desenho a uma determinada história, como se fosse a personalidade do episódio. É um trabalho fenomenal que faz com que encaixe perfeitamente e de uma maneira original no género de animação adulta.
Esta diversidade vem do trabalho de vários estúdios de diferentes países que conduziram a produção: o Blur Studio (EUA), o Blow Studio e o Able&Baker (Espanha), o Sun Creature Studio (Dinamarca), o Red Dog Culture House (Coreia do Sul), o Passion Animation Studios e o Axis Studios (Reino Unido), o Digic Pictures (Hungria), o Platige Image (Polónia), o Studio La Cachette e o Unit Image (França), o Sony Pictures Imageworks (Canadá), o Atomic Fiction (com estúdios nos EUA e no Canadá) e ainda animação de Alberto Mielgo (Espanha) e Elena Volk (Rússia).
(Por detrás da animação do episódio "Helping Hand")
(Por detrás da animação do episódio "Good Hunting")
Dependendo de quem estiver a ver, ouvir e sentir as histórias, saem pontos de vista dispersos e interessantes. É a série perfeita para ver com amigos. Aposto que vão ter de fazer pausas no fim de cada episódio para discutir ideias, isto é, se não ficarem sem palavras com o que acabaram de ver. Porque qualquer um destes contos tem o potencial de tocar no coração do espectador e é o que fazem.
Love, Death and Robots é um projeto de pôr os cabelos em pé. Imagino que tenha acontecido desde a sua criação. Há um enorme trabalho por detrás de cada imagem que vemos e apercebemo-nos disso, mas não nos distrai do conteúdo do enredo. Abre-nos a mente não se afastando de tópicos complexos. Faz-nos pensar sobre eles e criar mil e uma teorias enquanto nos mostra diferentes, mas igualmente excelentes, formas de arte em animação. Se estiverem prontos para ficar deslumbrados é esta a série que têm de ver.









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